30 de março de 2009

INCIDENTE NOTURNO

Desnuda de loucura
ela buscava sintomas
Algo para provocar a cura
Para seu corpo ainda em coma

E ele, mais que aflito
Queria ser a soma
Do hiato corpo hirto
a exalar um doce aroma

Ele, desejo
Ela, aridez
No mais louco ensejo
Seria estupidez.

Ela buscou na sua bolsa
Uma desculpa, um axioma.
Mas só achou um espelho
E seu rosto em rosa e croma.

Ele não perdoou-se facilmente
Ficou do amor o hematoma
De mordidas insolentes
Da calidez que não se doma

Perderam-se no destino
Até nunca mais...

22 de março de 2009

PRETÉRITO PERFEITO

Sei que um dia fui feliz
Que um dia já amei
Que um dia me satisfiz
Com o sonho que herdei

Mas o verbo que hoje conjugo
É o pretérito-mais-que-perfeito
E o que hoje eu vivo
Parece o resto de um sujeito

Com predicado infinito
De um gerúndio interrompido
Por acordar desse meu sonho
Onde me comprometi no infinitivo

Tenho a sensação de já ter vivido
Tudo o que a vida já me deu
Pareço já ter morrido
E apenas vegeto por não ser mais teu

Posso não ter mais a ti
Por conjugar tanto o passado
E parecer um anjo caído
Morto e condenado

A viver do passado

Hoje já não penso
Apenas lembro, lembro e... sonho

6 de março de 2009

APÓS VOCÊ

É o velho argumento
Na maneira de falar
De fingir o momento de ser
De fugir com os olhos secos
De aqui estar fingindo outro lugar

É o novo momento
De querer sempre você
Nem que seja por retrato,
Nem que seja por querer
Tua imagem no espelho
Espalhada pelo ar

Queria você passando o batom
Pra desperdiçá-lo todo em mim
E assim novamente viver contigo
Aquele sonho já morrido
Por parecer já tão antigo

Mas é do outro lado da rua
Que te vejo ir de costas
Com a bolsa a tira colo
Caminhar pro seu novo destino
Antes mesmo de escutar esse solo

(SOLO)

Mesmo sem saber como
A vida viverá sem um porquê
Mesmo sem saber como
Haverá vida após você
Ainda creio

17 de janeiro de 2009

MEU DIA

O tempo é o que meço
até chegar o dia
que terei o que peço:
a glória tão tardia

Eu brinco de esperar
Pela flor que se anuncia
O momento a chegar
Aquilo que eu tanto queria

Atravesso desertos descalço
Sem receio da solidão
Por dar passo em falso
Pois me espera a redenção

Quando o cálice de sangue
Se encher de poesia
Por fim entenderei
Que se aproxima o meu dia

E venha comigo...

14 de janeiro de 2009

INTERESSANTE

Eu hoje estou aqui
Querendo saber de você
Sua vida, seus afazeres, seu dia
Quero saber de você, do que lhe rodeia
Porque me interessam...

Seus gostos, seus sabores
Seu passado, seus amores
Quero saber de você
Porque me interessam...

Seu quarto mundo, sua bagunça
Onde tudo se organiza e eu me perdi
Bucando aquele retrato
para saber de você
Porque me interessam...

Suas roupas, sua cor preferida
Seu destino, sua alegria, sua ferida
Eu hoje estou aqui
Porque quero saber de você
Seus caminhos me interessam

Todos os seus passos
Eu passo pra saber
Do seu passado, e construir
Seu futuro para saber
Sempre mais de você
Porque me interessam...

13 de janeiro de 2009

BRISA MALDITA

Essa moça bonita
Que passa e arrebita
Os olhos do peão,
Do catireiro, do pedreiro
e do patrão

Eu com meus olhos ensaio
Um olhar de soslaio
Senão a patroa reclama
Senão confesso coração.

Ela passa só pra desfilar
Para arrastar cada olhar
Pra sua saia que se agita
Com essa brisa maldita
Ah se fosse um furacão!

Mas ela tem namorado
Que a segue pra todo lado
Que tenta blindar a menina
Da má intenção masculina

Mas sempre que pode
Ela se esconde e foge
Só pra cair no samba
Onde a saia descamba
E o coração explode

De felicidade o peão,
o catireiro, o pedreiro
e o patrão.

31 de dezembro de 2008

Poema para esquecer.

Para os sonhos e pesadelos
há um orifício racional
onde o soldo da grande glória
e os resquícios dos deméritos
são registros de memória.

O que grava tua retina
é um vídeo-tape obrigatório
pois a maquina se despluga
mas o cérebro irredutível.
revê o que nunca muda.

Para esquecer é preciso sonhar
vislumbrar aquele novo horizonte
sem receio de alcançar
a sua própria água vital
e descansar numa só fonte.

Para esquecer é preciso ser escritor
e não escrivão de sua vida
tem de merecer a superação.
ao invés de deitar na lividez
procurando a memória já morrida

De morte matada...

30 de dezembro de 2008

ENTRECÍLIOS

Esse olhar que fuzila
a pele de mormaço
rarefeita e tranqüila
desperta num estardalhaço

Esse olhar que cintila
cometa pelo espaço
e meu olho assimila
mas só enxerga o pedaço

Desse olhar que desfila
Passarelas passo a passo
Por um momento vacila
E o descaminho perfaço

Que o calor da tua pupila
desperte o desembaraço
Desse peito que oscila
Entre o teu e o descompasso

Penetras minh’alma.

9 de novembro de 2008

VIL METAL

Preciso de tempo
Preciso de dinheiro
Ou o dinheiro que precisa
do meu tempo o tempo inteiro?

Vende-se meu dia
de sol alvissareiro
pelo mínimo que se consiga
viver nesse viveiro

Preciso de tempo
Preciso o tempo inteiro
desse metal vil e impreciso
pra sair do cativeiro

Meu sangue agora é seu
e leve grátis o derradeiro
suor que do rosto pinga,
a aguardente e o travesseiro

Preciso de tempo
Preciso de fevereiro
onde há o pão e o circo
e me mascaro aventureiro

Uma esmolinha, por favor...

ROUPA NUA

Essa desmesura
da tua pintura
rutila teu olho
nesta suave moldura

Mas pretendo tua pele
Nessa fina brancura
Tocar bem de leve
E sentir tua textura

Quero teu olhar nu
Como é pura tua jura
De amar-me a alma e o corpo,
com a mesma doçura

Vista-te de ti mesma
Entrega-me com loucura
Teus sonhos, teu sexo
E cura minhas agruras

O que a vida já desatou
O destino agora costura
O sonho que posso olhar
Nesse olho agora sem pintura

Borrou-se no suor...

13 de setembro de 2008

MENOS O MEU

Tua poesia cai pelas ladeiras
Foge pelos ralos
Some na poeira que ficou nos pés

Tu com tuas palavras lânguidas
pareces querer me seduzir
Mas teus olhos fugidios
miram o horizonte e quase tudo,
menos os meus.

Teus beijos estão em todos os cantos
Premiam bocas outras
Menos a minha

E eu me diluo nessa ilusão
Sôfrega, densa, e muito própria.
Eu não só não tenho a ti
Como perdi a mim mesmo

Não te rimo mais
Nem te verso, nem te proso
Quero a sua desgraça
Longe de mim, assim como pretendes estar.

Terás assim muitas outras bocas
Outros corpos, outros sonhos
Menos os meus.

22 de agosto de 2008

AMOR MODORRENTO

Ah como é bom morrer de amor
e continuar vivendo!
Queria assim me perder
de amores por ti sofrendo

Como é bom tocar nos olhos
teus com meu olhar
E poder manter-me lendo
tua alma aqui por dentro

Mas é triste esse esgar
de solidão me remoendo
por não ter mais teu retrato
na estante longe se perdendo

Eu mergulho em mim mesmo
em busca do espelho adentro
onde eu possa ver o reflexo
do teu corpo em mim jazendo

Morrer de amor é viver morrendo...

9 de julho de 2008

CIÊNCIA DO AMOR*

Aproveito o ensejo
para vislumbrar
céus, terra, estrelas
e a doçura desse mar

Aproveito o desejo
para me embriagar
do nobre cálice de vinho
no entorpecente bebericar

E me jogar nessa estrada
com curvas que desafiam
a nossa pobre Física

Tu és a menina sorriso
que atormenta o norte
desses pobres homens

Volumes, formas, coração
Geometria perfeita
Química insuspeita
Sentimento sem um "senão"

Feliz e raro
aquele que tomar seu amor
pois dele sempre será
sua alegria sem penhor.

*Para Camilla Borges

3 de julho de 2008

NARCISICAMENTE

Pelo espelho te vejo
Assim que tua lindeza
Que espalha a beleza
Pelo ar como um beijo

Te observas as bochechas
em ângulos mil
Procuras nos teus olhos
tuas formas em perfil

Numa ode a ti mesma
fazes caras e bocas
expressões de delicadeza
que me sugerem idéias loucas

Tua menina dos olhos
se ilumina em flash
por detrás das cortinas
e de onde tu menos imaginas

Narciso que te inveje.

30 de junho de 2008

CAMINHOSOZINHO

Gotas de chuva
chovem meu caminho
onde sigo o destino
com você, porém sozinho

Não compreendo essa força
que me leva ao caminho
de pedras pontiagudas
onde me espeto, me firo sozinho

O sol que agora me encouraça
Alumia aquele tal caminho
Luz e calor desproporcionais
à sombra que vivo sozinho

E quando a lua se apresenta
para enluarar o meu caminho
Descubro a luz prata inóspita
que petrifica o coração sozinho

A morte é uma dádiva
para quem encerra o caminho
mas a vida ainda uiva
como um lobo para lua
já que ambos morrem sozinhos

Ressuscito-me a mim mesmo só.


15 de abril de 2008

SAUDADES DA MORTE

O conta-gotas se esgota
não há mais um delírio
o ar agora sufoca
num derradeiro suspiro

Agonia vertiginosa
arregalam olhos remelados
nos ouvidos agora toca
a canção d’um condenado

Passo pela vida em passos
maldados desaforados
desato todos os laços
com quem tenho bom grado

Eis que agora vou retornar
ao sono profundo sem norte
já não preciso mais chorar
de saudades da morte.

11 de abril de 2008

O AMOR VIVE*

Os olhos fechados
Á beira do paraíso
Perdigotos compartilhados
Lubrificam o juízo

O toque de um abraço
Que mãos delirantes
Em um sopro de vida
De amores marcantes.

Tudo parecia perdido
Nau sem bússola
Pássaro novo
longe do ninho
Nada queria
indicar o caminho

Quando o destino
Brincalhão
Resolveu tomar frente
Tentação.

E o vento cálido
Derreteu o gelo terrível
Que insistia em petrificar
Nosso amor possível

Não sublime seu desejo
Seja fiel ao seu coração
Nunca deixe de olhar meus olhos
Quando lhe peço a sua mão.

Não seja sombra
Se torne luz
E jamais se esqueça
O destino?
É você quem conduz.


*Antologia poética 2002

6 de abril de 2008

SEU SORRISO

Ah que sorriso!
Magnético e impreciso
Que atrai os meus ouvidos
E me habita os sentidos

Quando floresce
seu sorriso me amanhece
Nascente que se tece
O novo sol que me aquece

Sua tez assim se fez
Escarlate desse sorriso
que me afasta do juízo
quando daqui eu o diviso

Devaneio ótico

30 de março de 2008

DESSONHO

Queria ser leviano
Ao menos de vez em quando
dedilhar um sonho feliz
tal qual se toca um piano

E te falar sinceridades
cantá-las como um soprano
e fazer o mundo saber
o quanto “eu te amo”

Mas não posso, pois
com a vaidade me engano
e o orgulho amordaça
esse sentimento insano

Por que não me tratas de "amor"?
Foges desse intimo desatino
fatal para qualquer ser humano
de se perceber se apaixonando

Permita-me te ver jogar
com minha vida em dados
e num azar te ver ganhar
o meu coração suburbano

Me faça teu...

20 de março de 2008

CLAREVIDÊNCIA

Me faltam palavras
Sobre tua lindeza brilhante
Calada e falante
Eterna por um instante.

Me faltam adjetivos
Sobre essa tua simetria
De luz da cor do dia
Que agora me alumia

Me falta também o ar
Para cheirar do teu perfume
Que meu sentido já presume
Ser o teu como costume

Me falta a proximidade
Te encontrar na tua cidade
E por fim
Te olhar
Venerar
Admirar
O teu ar respirar.


Ofegante.