14 de janeiro de 2009

INTERESSANTE

Eu hoje estou aqui
Querendo saber de você
Sua vida, seus afazeres, seu dia
Quero saber de você, do que lhe rodeia
Porque me interessam...

Seus gostos, seus sabores
Seu passado, seus amores
Quero saber de você
Porque me interessam...

Seu quarto mundo, sua bagunça
Onde tudo se organiza e eu me perdi
Bucando aquele retrato
para saber de você
Porque me interessam...

Suas roupas, sua cor preferida
Seu destino, sua alegria, sua ferida
Eu hoje estou aqui
Porque quero saber de você
Seus caminhos me interessam

Todos os seus passos
Eu passo pra saber
Do seu passado, e construir
Seu futuro para saber
Sempre mais de você
Porque me interessam...

13 de janeiro de 2009

BRISA MALDITA

Essa moça bonita
Que passa e arrebita
Os olhos do peão,
Do catireiro, do pedreiro
e do patrão

Eu com meus olhos ensaio
Um olhar de soslaio
Senão a patroa reclama
Senão confesso coração.

Ela passa só pra desfilar
Para arrastar cada olhar
Pra sua saia que se agita
Com essa brisa maldita
Ah se fosse um furacão!

Mas ela tem namorado
Que a segue pra todo lado
Que tenta blindar a menina
Da má intenção masculina

Mas sempre que pode
Ela se esconde e foge
Só pra cair no samba
Onde a saia descamba
E o coração explode

De felicidade o peão,
o catireiro, o pedreiro
e o patrão.

31 de dezembro de 2008

Poema para esquecer.

Para os sonhos e pesadelos
há um orifício racional
onde o soldo da grande glória
e os resquícios dos deméritos
são registros de memória.

O que grava tua retina
é um vídeo-tape obrigatório
pois a maquina se despluga
mas o cérebro irredutível.
revê o que nunca muda.

Para esquecer é preciso sonhar
vislumbrar aquele novo horizonte
sem receio de alcançar
a sua própria água vital
e descansar numa só fonte.

Para esquecer é preciso ser escritor
e não escrivão de sua vida
tem de merecer a superação.
ao invés de deitar na lividez
procurando a memória já morrida

De morte matada...

30 de dezembro de 2008

ENTRECÍLIOS

Esse olhar que fuzila
a pele de mormaço
rarefeita e tranqüila
desperta num estardalhaço

Esse olhar que cintila
cometa pelo espaço
e meu olho assimila
mas só enxerga o pedaço

Desse olhar que desfila
Passarelas passo a passo
Por um momento vacila
E o descaminho perfaço

Que o calor da tua pupila
desperte o desembaraço
Desse peito que oscila
Entre o teu e o descompasso

Penetras minh’alma.

9 de novembro de 2008

VIL METAL

Preciso de tempo
Preciso de dinheiro
Ou o dinheiro que precisa
do meu tempo o tempo inteiro?

Vende-se meu dia
de sol alvissareiro
pelo mínimo que se consiga
viver nesse viveiro

Preciso de tempo
Preciso o tempo inteiro
desse metal vil e impreciso
pra sair do cativeiro

Meu sangue agora é seu
e leve grátis o derradeiro
suor que do rosto pinga,
a aguardente e o travesseiro

Preciso de tempo
Preciso de fevereiro
onde há o pão e o circo
e me mascaro aventureiro

Uma esmolinha, por favor...

ROUPA NUA

Essa desmesura
da tua pintura
rutila teu olho
nesta suave moldura

Mas pretendo tua pele
Nessa fina brancura
Tocar bem de leve
E sentir tua textura

Quero teu olhar nu
Como é pura tua jura
De amar-me a alma e o corpo,
com a mesma doçura

Vista-te de ti mesma
Entrega-me com loucura
Teus sonhos, teu sexo
E cura minhas agruras

O que a vida já desatou
O destino agora costura
O sonho que posso olhar
Nesse olho agora sem pintura

Borrou-se no suor...

13 de setembro de 2008

MENOS O MEU

Tua poesia cai pelas ladeiras
Foge pelos ralos
Some na poeira que ficou nos pés

Tu com tuas palavras lânguidas
pareces querer me seduzir
Mas teus olhos fugidios
miram o horizonte e quase tudo,
menos os meus.

Teus beijos estão em todos os cantos
Premiam bocas outras
Menos a minha

E eu me diluo nessa ilusão
Sôfrega, densa, e muito própria.
Eu não só não tenho a ti
Como perdi a mim mesmo

Não te rimo mais
Nem te verso, nem te proso
Quero a sua desgraça
Longe de mim, assim como pretendes estar.

Terás assim muitas outras bocas
Outros corpos, outros sonhos
Menos os meus.

22 de agosto de 2008

AMOR MODORRENTO

Ah como é bom morrer de amor
e continuar vivendo!
Queria assim me perder
de amores por ti sofrendo

Como é bom tocar nos olhos
teus com meu olhar
E poder manter-me lendo
tua alma aqui por dentro

Mas é triste esse esgar
de solidão me remoendo
por não ter mais teu retrato
na estante longe se perdendo

Eu mergulho em mim mesmo
em busca do espelho adentro
onde eu possa ver o reflexo
do teu corpo em mim jazendo

Morrer de amor é viver morrendo...

9 de julho de 2008

CIÊNCIA DO AMOR*

Aproveito o ensejo
para vislumbrar
céus, terra, estrelas
e a doçura desse mar

Aproveito o desejo
para me embriagar
do nobre cálice de vinho
no entorpecente bebericar

E me jogar nessa estrada
com curvas que desafiam
a nossa pobre Física

Tu és a menina sorriso
que atormenta o norte
desses pobres homens

Volumes, formas, coração
Geometria perfeita
Química insuspeita
Sentimento sem um "senão"

Feliz e raro
aquele que tomar seu amor
pois dele sempre será
sua alegria sem penhor.

*Para Camilla Borges

3 de julho de 2008

NARCISICAMENTE

Pelo espelho te vejo
Assim que tua lindeza
Que espalha a beleza
Pelo ar como um beijo

Te observas as bochechas
em ângulos mil
Procuras nos teus olhos
tuas formas em perfil

Numa ode a ti mesma
fazes caras e bocas
expressões de delicadeza
que me sugerem idéias loucas

Tua menina dos olhos
se ilumina em flash
por detrás das cortinas
e de onde tu menos imaginas

Narciso que te inveje.

30 de junho de 2008

CAMINHOSOZINHO

Gotas de chuva
chovem meu caminho
onde sigo o destino
com você, porém sozinho

Não compreendo essa força
que me leva ao caminho
de pedras pontiagudas
onde me espeto, me firo sozinho

O sol que agora me encouraça
Alumia aquele tal caminho
Luz e calor desproporcionais
à sombra que vivo sozinho

E quando a lua se apresenta
para enluarar o meu caminho
Descubro a luz prata inóspita
que petrifica o coração sozinho

A morte é uma dádiva
para quem encerra o caminho
mas a vida ainda uiva
como um lobo para lua
já que ambos morrem sozinhos

Ressuscito-me a mim mesmo só.


15 de abril de 2008

SAUDADES DA MORTE

O conta-gotas se esgota
não há mais um delírio
o ar agora sufoca
num derradeiro suspiro

Agonia vertiginosa
arregalam olhos remelados
nos ouvidos agora toca
a canção d’um condenado

Passo pela vida em passos
maldados desaforados
desato todos os laços
com quem tenho bom grado

Eis que agora vou retornar
ao sono profundo sem norte
já não preciso mais chorar
de saudades da morte.

11 de abril de 2008

O AMOR VIVE*

Os olhos fechados
Á beira do paraíso
Perdigotos compartilhados
Lubrificam o juízo

O toque de um abraço
Que mãos delirantes
Em um sopro de vida
De amores marcantes.

Tudo parecia perdido
Nau sem bússola
Pássaro novo
longe do ninho
Nada queria
indicar o caminho

Quando o destino
Brincalhão
Resolveu tomar frente
Tentação.

E o vento cálido
Derreteu o gelo terrível
Que insistia em petrificar
Nosso amor possível

Não sublime seu desejo
Seja fiel ao seu coração
Nunca deixe de olhar meus olhos
Quando lhe peço a sua mão.

Não seja sombra
Se torne luz
E jamais se esqueça
O destino?
É você quem conduz.


*Antologia poética 2002

6 de abril de 2008

SEU SORRISO

Ah que sorriso!
Magnético e impreciso
Que atrai os meus ouvidos
E me habita os sentidos

Quando floresce
seu sorriso me amanhece
Nascente que se tece
O novo sol que me aquece

Sua tez assim se fez
Escarlate desse sorriso
que me afasta do juízo
quando daqui eu o diviso

Devaneio ótico

30 de março de 2008

DESSONHO

Queria ser leviano
Ao menos de vez em quando
dedilhar um sonho feliz
tal qual se toca um piano

E te falar sinceridades
cantá-las como um soprano
e fazer o mundo saber
o quanto “eu te amo”

Mas não posso, pois
com a vaidade me engano
e o orgulho amordaça
esse sentimento insano

Por que não me tratas de "amor"?
Foges desse intimo desatino
fatal para qualquer ser humano
de se perceber se apaixonando

Permita-me te ver jogar
com minha vida em dados
e num azar te ver ganhar
o meu coração suburbano

Me faça teu...

20 de março de 2008

CLAREVIDÊNCIA

Me faltam palavras
Sobre tua lindeza brilhante
Calada e falante
Eterna por um instante.

Me faltam adjetivos
Sobre essa tua simetria
De luz da cor do dia
Que agora me alumia

Me falta também o ar
Para cheirar do teu perfume
Que meu sentido já presume
Ser o teu como costume

Me falta a proximidade
Te encontrar na tua cidade
E por fim
Te olhar
Venerar
Admirar
O teu ar respirar.


Ofegante.

12 de março de 2008

...pelas noites

Qualquer devaneio
já me satisfaz
Imagino teu seio
na minha mão fugaz

Qualquer receio
reprime o desejo
desse rosto no meio
do cheiro que apraz

Sou um amador
na luz da solidão
Sinto o frio do calor
Do prazer na minha mão

Nesse sonho creio
fugir assim, assaz
das noites de devaneio
quando a dor se refaz

Sou um teclador
das noites sem fim
Com olhos vidrados
esperando teu Sim

Adormeço de esperar

7 de março de 2008

CLICHÊ

Eu não te conheço
nem sei das tuas rodas
não preciso te esquecer
nem lembrar-me do teu tato

Tua voz me é estranha
Que horas tu acordas?
Pra que santo tu rezas?
Qual demônio do teu pacto?

Não precisas responder
Já não me interessa
Eu me viro muito bem sem saber.

Nunca fizeste mal, nem bem
Não fedes nem cheiras
Eu me preencho com o vazio
Da tua ausência benfazeja

A distância é quase um detalhe
que nos afasta como queiras
Prometo não atormentar
Tua flor, que assim o seja.

Ilusão, um clichê

20 de fevereiro de 2008

REMINISCÊNCIAS

Os corações num descompasso uníssono
balbuciam sussurros monossílabos.
Os suores se misturam, se trocam, se tocam
pele que arde na arte do toque

Mãos percorrem os pêlos, pelas vias
torneadas, sublimes de se mirar
Mil mãos se auto acarinham
onipresentes, exploram dos cabelos aos pés.

Apesar do teu esplendor desnudo
são teus olhos que fascinam
Pupilas rútilas reviram, te olham por dentro
Te invado, mas não vejo, apenas sinto.

O pouco tempo de amor
é o que me leva às reminiscências
Para toda uma inteira semana
Sem te olhar o coração olhos nos olhos

12 de fevereiro de 2008

SONETO SURDO

O que cresce em mim
O que me ocupa os espaços
É o vazio que ecoa
Que acompanha meus passos

Não quero a tolerância
Nem a piedade desse olhar
Sou uma fortaleza de areia
E quero a onda que teima me derrubar

Estou cansado de me destruir
Viver é a pior forma de morrer
Cada lugar que caio, sinto a umidade
Desse bueiro aterrado de lixos a feder.

Já construí cidades e ruínas
Vivi até aquele amor suposto
Que teima e me inebria
Pela falta do calor do colo oposto

8 de fevereiro de 2008

SALIVA VIVA

Quero beijar-te à língua
beber-te a saliva
que do teu lábio pinga corrosiva
ardente Água viva

Quero embriagar-me da seiva
que do teu lábio agora pende
elástica e meiga
por entre esses teus dentes

Quero abraçar-te a ginga
e fazer-te superlativa
nesse amor amaríssimo
a saborear-te aperitiva

Quero a loucura que vinga
vida e morte na tua língua
que procura aflitiva
meus dentes, minha sina

Estas nossas salivas
para sempre hão de pingar
por entre lábios
entre línguas
e dessa tua boca corrosiva

20 de janeiro de 2008

O SILÊNCIO E NÓS

Este teu silêncio
é quem fala por nós
com verbos ausentes
quando estamos a sós

Revestir um sentimento
com essas tais palavras
que te causam encantamento
é a magia que pretendo

Quero ser teu trovador
único e exclusivo
e cantar esse amor
que agora eu cultivo

...e provocar-te o silêncio
Que precede um suspiro
Mas te excita às palavras
Num arrebatado delírio

...e provocar-te a falar
com languido torpor
mesmo que seja por um olhar
nesse élan de amor.

Te inspiro poetisa...

17 de janeiro de 2008

ALVA PELE II

Alva pele
Belo colo
Pelos poros pêlos louros
Pêlos negros claros pêlos pela pele
A ti matizes de luz e sombra mixadas

Bela cor
Alvo amor
Colo sussurro, quente arfante
Bela curra
Divino prazer

Pele péla
Arde a paixão
Queima o amor
Incinera a alma de desejo
Sofro e olho
Apenas olho
e por que?

Alvas curvas
Deslizantes, lisas
Perfeitas formas
Pêlo amor
Bela cor, a mais bela
Gozo.

6 de janeiro de 2008

Elas preterem os poetas

O verbo que hoje calço
É aquele que me leva
a dar cada passo em falso
na mais perene treva.

Os meus adjetivos
são hoje meu cadafalso
Música tão subjetiva
no salão onde eu valso

Sou escuridão que amanhece
tua podridão que amadurece
minha solidão que comparece
nas noites de estrelas chuvosas

As mulheres dadivosas
Quais me fazem um desejoso
Voraz de apetite jocoso
Torpe de paixão

A poesia é para ti
que tanto odeia os versos
Neste peito agora imersos
Afogados para a eternidade

Regurgito teu sabor.

2 de outubro de 2007

DURMA COM ESSE BARULHO

Esse preto da pele
não é minha natureza
ou nobreza que me revele
com invisível beleza.


Meu colchão tão sólido
Foi feito para os sapatos
Mas é meu lombo bucólico
que adormece no último ato


As estrelas viram sol
Que nasce com orgulho
E trinca meu anti lençol
Durma com esse barulho


Dos carros e pessoas
Que se apressam ao trabalho
Com o alarido que ressoa
Nessa cabeça em retalhos


Nesse chão em que mergulho
Queria o silencio que me olhe
Mas eu durmo no barulho
Dessa rua que me acolhe


Tenho a mais larga das camas
Vejo as pombas em seu arrulho
Tomo banho nessa lama
Espezinhada por este barulho


Travesseiro, batente travesseiro.

29 de agosto de 2007

ELE EM TI

Queria te morder a maçã do rosto
Lograr da lágrima que queda
Do teu olho ao sentir meu gosto
quando meu branco em ti segreda

Queria te prender perpétua
nessa cama circunspecta
Te fazer flutuar em névoas
E em ti destilar meu néctar

E se a manhã ainda teimar
em dar cabo de nossa noite
quero o sol a te queimar
as marcas do apaixonado açoite

Noites insones corpo em cima
no teu jardim de sofismas
colher tua flor mais intima
para irrigar teus carismas

apenas me ame...

7 de agosto de 2007

EU PAPEL

Estou com um papel em branco diante de mim.

Um desafiador papel branco.

Um inocente e irônico papel em branco. Que ri de mim, pois não saber preenche-lo com as palavras que eu gostaria. Que se impõe como um carrasco terrível, a sombra da espreita, querendo me pegar as esquinas das vírgulas, nos assombros interrogativos, nos berros de terror exclamativos.

Um papel.

Estou com um sentimento no peito.

Um sentimento inadvertido.

Capaz de me encher as lacunas cavernosas desse coração atribulado. Que aquece minhas sibérias interiores. Aperta-me o peito e a garganta como se essas fossem de um desgraçado suicidando-se pendurado no chuveiro. Esse sentimento que encarnou em mim e alojou-se na minha pele, minha carne, meus nervos, meus ossos.

Um sentimento.

Um sentimento e um papel.

Desafio duplo. Entender o sentimento, revesti-lo de palavras joga-lo no papel. Será que palavras dão conta dos sentimentos? Será que os neologistas já criaram os termos necessários para satisfazerem nossos sofismas, ódios, rancores, misérias, riquezas, glórias, amores?

Uma língua de tão profunda riqueza como é a nossa língua mater, não possui as instâncias precisas para designar o que clamam o profundo coração.

Eis a batalha eterna. O desaguar absurdo, cremoso, vulcânico do amor contra a racionalidade verbal, conjugada das palavras.

Há momentos em que um puro e significativo “eu te amo” é tão pouco, tão curto, tão inconsciente que não consegue ser a tradução mais que perfeita de tudo o que se pode sentir.

Aqui eu desisto.

Fui vencido pelo papel. Incoerente, lúbrico, jazigo papel.

Não me importa agora buscar essas palavras que teimam em fugir.

Hei, onde vão vocês. Não me deixem nessa solidão muda...

1 de agosto de 2007

ROUPA NUA

Essa desmesura
da tua pintura
rutila teu olho
nesta suave moldura


Mas pretendo tua pele
Nessa fina brancura
Tocar bem de leve
E sentir tua textura


Quero teu olhar nu
Como é pura tua jura
De amar-me a alma e o corpo,
com a mesma doçura


Vista-se de ti mesma
Entrega-me com loucura
Teus sonhos, teu sexo
E cura minhas agruras


O que a vida já desatou
O destino agora costura
O sonho que posso olhar
Nesse olho agora sem pintura


Borrou-se no suor...


27 de julho de 2007

MINUTO DESTINO

Um minuto
Um mês em um minuto
O eterno diminuto
Toda vida vem em súbito

Um olhar
Um corpo em um olhar
O coração a latejar
Toda emoção vai retesar

Dois destinos
Unidos pelo breve desatino
Ouço badalar os sinos
Desse amor clandestino

Te quero amar
Por um sublime minuto
Nesse fogo de olhar
E possuir seu destino.

Sonho de menino.

12 de maio de 2007

SOMBRA LUMINOSA

Nessa sombra luminosa
Guardo o retrato teu
Fotografias mentirosas
Amargas num baú encadeado.

O louco ainda vive
Por que a sanidade já morreu
Cata moscas invisíveis
Aos olhos de um Galileu
Que tenta provar o redondiço do planeta

Em algum lugar assaz
Faço ainda letras pra te mostrar
Mas elas nunca sairão do meu diário
Nem sequer irão te incomodar.

Desse ventre onde morei
Jamais deveria ter saído
E tampouco entrado
Preferia meu lar escroto
Pronto a morrer na mão.

Tenho agora esse caminho herdado
Uma sina, um karma
Ou quiçá um desagrado
Devoro cada palmo desse chão
Vitima do teu consentido pecado.

AKILY

Você é minha doença
Meu carma, minha praga
Preferida
Meu lugar comum, minha ofensa
Meu catarro febril
Minha ferida

Sou soropositivo de você
Minha lepra, meu pânico
Doença desconhecida
Minha rima clichê
Meu fantasma diário
Cicatriz dolorida

Ainda morro de te querer
Câncer maligno implacável
Amor da minha vida
Vomito muco com sabor
Dos seus beijos proibidos
Sexo reprimido

Te odeio.
Mentira.

4 de janeiro de 2007

PARTO OPOSTO

Essa tua pouca roupa
Veste-me de embriaguez
Turva esse solo
Que eu tanto queria que ouvisses

Essa tua não roupa
Me envolve no conforto obsessivo
Por beber esse vinho aos sorvos
Degustando cada gota dessa pele mor.

Faço em ti o parto oposto
Insisto em lançar-me para dentro
Do seu mais profundo âmago
E nadar nesse rio ébrio.

Bebo essa seiva ora amarga
Agora doce
Faço do teu semblante meu reflexo
E logro do teu olho rútilo de prazer.

E eis que os sinos badalam...

Uníssonos...

Fiéis e efêmeros
Não minta, não minta.

Sei que queres agasalhar no teu ventre
Aquilo que tanto e tanto me ilimita
E te transcende aqui por dentro.

25 de outubro de 2006

Paulo Paulinho Chico Francisco

Cada sonho se parece
Sempre com o seu lar
E as alegrias enaltecem
Essa pessoa tão impar

O caráter e a devoção
Estão aos olhos vistos
És pra mim um exemplo
E por todos benquisto.

Para cada tristeza
Um acalanto
Com sua voz gutural
Afagas-me com tua mão
Firme e natural.

Comemorai, minha gente,
Comemorai
É o aniversário do meu pai

Chega com teu abraço
Tua sabedoria de anos afim
Tua barba cerrada e barriga de chope
Ai meu Deus, não fumes assim!

Quero te ter pra sempre
Anjo, amigo e pai
Se hoje pareço homem
A meninice recai

Artista, vendedor
Desenhista, escultor
Que adjetivos mais
Pode ter assim um pai?

Comemorai, minha gente,
Comemorai
Hoje é aniversário do meu pai

Estes anos não são só teus
E sim de mais gente que aqui
Cabem nesse papel
Eu, minha mãe, Rafael
Cristiane e o pequeno Miguel

Beijo grande à distância
E comemorai, mundo,
Comemorai
Hoje é o dia para o meu pai.

15 de outubro de 2006

COVA A CORES

Não verso e não proso
Isso hoje é tão banal
Belas mesmo são as estrelas
Com seu brilho natural.

Abandono tortas linhas
Pois não há efeito algum
Quero cores sulfúricas
Em traços embriagados de rum

A luz desse espelho digital
Me entorpece com imagens flutuantes
Decora o que finjo ler
E sopra um efeito a mim mutante

Nem ainda mais sei
Por que teimo em construir
Versos e conjugações verbais
Para não lerem sem me agredir

Conjugo o amor
E só vejo esse alvor

Conjugo o tédio
E não rimo com remédio

Verso sombras e luzes
E só percebo essa música
Serena e indecifrável
E desconstruo a rima

Não vejam o que escrevo
Apenas os efêmeros traços
Desse teu insano espelho

Escapo pintor.
Esculpo o amor.

14 de outubro de 2006

UM MUNDO MINDINHO

É para esse mundo
Que lhe faço proles palavras
Mundo doce amargo e leigo
Um profano em letras sacras

Cada volta que tu deres
É para o couto imenso casto
De um filho a ti ingrato
Devasta-te teu verde pasto

Essa Terra é para humanos
Que mal olham além do sorriso
Esse rosto é apenas rótulo
E se furta á ferida que cauterizo

O amor que era interior
Virou marca fina rouparia.
Subterfúgio para o sexo
Ou uma efêmera companhia

Esse mundo mindinho
Não me quer por inteiro
Sim por aquilo que lhe atrai
Prefere o que pareço e não
O que sou verdadeiro.

9 de outubro de 2006

Mais uma de nostalgia...

Eu queria ter
Escutado mais os meus pais
Amado sem medo de me machucar
E se eu me machucar, queria ter encarado
Como um aprendizado.

Eu queria ter
Brincado mais de bola
Subido na árvore mais alta
Andado de bicicleta com 5 anos de idade

Eu queria ter
Rido alto quando eu caia.
Falado o que eu pensava no momento exato
Reagido na mesma forma e medida
Com que eu fui atacado.

Eu queria ter
Estado no estádio naquele jogo
Aprendido a dirigir mais cedo
Me molhado na chuva sem medo de adoecer.

Eu queria ter
Escrito todas as histórias que eu já pensei
Conversado com a menina que eu desejei
Mas nunca tive coragem de me aproximar
E ter tido a surpresa de ser correspondido

Não há marca que não se apague
Dor que não engrandeça
Alegria que não cause nostalgia
Sorriso que não preceda uma lágrima.

Ame cada agora
Como se o depois fosse o fim.

5 de outubro de 2006

Letras lúbricas

Entre eu e você
Há um profundo e sombrio
Sonho de uma noite apenas
Noite que se passa e passararia

Todo inicio tem o mesmo fim
Não mais me surpreendo
Contemplativo e abjeto
Maculei a lembrança desse momento

Se o meu sorriso ainda lhe dói
Choro alegrias bastantes
Para um só ser se sustentar
Pois sei que nada acontecereria

A noite há de apagar cada mancha
Desse lençol corpuscado
Dessa madeira derretendo em gozo
Parecendo lágrimas de um amargurado

Entre eu e você
Ainda existe o cume de um desejo
Que ficará para sempre recostado
Num livro restante
Nessa lívida instante
Por instantes eternos

2 de outubro de 2006

SEMI CATARSE

O formato dessa voz
Não me é familiar
Nem me traz recordações
Amargo é o coração amar

Símbolos e cartas
Não possuem significantes
Jogadas par em par
Procuram o produto do restante

Essa sombra já virou brincadeira
Jogo jogos no escuro
Perdemos toda a graça
Quando a luz se incendeia

Sobre essa dor que eu falo
Da gratidão, sentimento eterno
Nosso grande trunfo
Entre o errado e o incerto

Quase vi essa luz cinza
No escuro orientar
Cada passo a um infinito
Até a torre iluminar

Tenro céu estrelado
Apenas o tenho enevoado
Prefiro rimas sem poesia.

27 de setembro de 2006

O CARÁTER MAIS LÉXICO

Como já disse em outras ocasiões, vivemos no país do provisório eterno. Pode parecer até mesmo uma frase feita, mas traduz com fidelidade a realidade da cultura brasileira. Mas não quero falar sobre isso. O “provisório eterno” é tão flagrante nas calçadas, nos parques, no ônibus matutinos, nos vômitos dos bêbados, nas folhas dos jornais, que não é necessário nem enxergar o óbvio para percebê-lo.

Pois sim, venho falar da nossa democracia eterna e provisória. Ou o ensaio de democracia o qual fingimos viver. O brasileiro é refém da sua própria democracia, pois é compelido a comparecer à seção eleitoral para “exercer seu dever de cidadão”. Mas a questão que venho discorrer não é propriamente a obrigatoriedade do voto, com efeito. Pretendo discorrer sobre o que somos submetidos a escolher no momento do pleito. Cheguei onde pretendia: não há, em absoluto, opção para um sufrágio de qualidade. Nem se procurássemos com olhos de um Lince, acharíamos alguma alternativa.

Alguns objetarão: “conheço um camarada honesto, para o qual vou dedicar meu voto”. Esqueça. As laranjas podres e eternas das câmaras e senado estarão ali, prontos a corromper qualquer boa intenção e derrubar um suposto herói quixotesco que queira lutar contra os moinhos de vento dos mensalões e sangue-sugas. Nem São Francisco de Assis, com seus passarinhos nos ombros, conseguiria algum resultado miraculoso. O problema é o sistema criado pelos caciques que habitam o planalto central e ditam as leis.

Eis que surge a democracia, com sua teoria perfeita, doce e utópica. Ela nos garante o direito de escolha. Garante, portanto, o direito também da anti-escolha. A democracia, em tese, aceita a anti-democracia que se personaliza pelo voto nulo. Eis uma arma utilíssima contra os bandidos de gravata que governam o país e combater aqueles outros que anseiam o poder. O voto nulo é uma opção consciente, adulta, inteligente. É uma silenciosa arma de protesto, uma voz prestes a gritar pela liberdade do nosso povo.

Reporto-me à José Saramago e o seu brilhante “Ensaio sobre a Lucidez”, onde todo um país resolve votar em branco e ocorre então um semi caos, um efeito dominó onde a democracia se viu premiada, enquanto os políticos foram queimados em praça publica (dentro de uma metáfora). Pois não se assustem com isso. Se algum dia o ensaio sobre a lucidez tomar conta do nosso eleitorado, o Brasil será uma terra sem governantes, mas a Democracia se realizará em seu caráter mais léxico: Demo = povo, cracia = poder. O poder será tomado pelo povo, uma revolta partindo da própria sociedade ocorrerá e o nosso país se tornará mais aberto. Pode não ser a solução para tudo, porém será o inicio da remoralização do Brasil. O voto nulo é um direito, mas está se tornando um dever. Se o nosso governo é a indecência que é, auto-flagele-se, pois foi o nosso voto que contribuiu para isso.

25 de setembro de 2006

[COLCHETES]

letra maiúscula não quero pensar nas regras gramaticais elas foram feitas para os idiotas da objetividade afinal o que são palavras se não a materialização do intangível e ainda possuem a pretensão absurda de tentar encerrar um sentimento comparo um texto a uma vida acerca de suas virgulas interrogações exclamações começam com o maiúsculo da dor do parto e termina com a pusilanimidade do ponto final os sonhos as grandezas estão todas inseridas nessa oração a qual busca as reminiscências do destino há vidas que são frases curtas e insossas enquanto outras também são frases únicas porém como um slogan e brilham pelas luzes da ribalta num outdoor grotesco existem também destinos que são textos rosianos repletos de neologismos são vidas grandes em veredas e amores outrora vislumbramos biografias como se fosse uma peça rodriguiana e seus dramas conflitos e surpresas enfim existem vidas e vidas momentos agudos replicantes em crase com curvas de trema e existências que se encerram na eminência dos dois pontos elimino as discordâncias verbo-nominais aprendo com as figuras de linguagem amarro meus cavalos a um ponto e virgula onde paro para respirar e depois prossigo o caminho interrogante exclamante e não dispenso os parênteses que é quando durmo e quebro o pensamento uma frase é um momento de liberdade real sempre cerceada pela hipocrisia da pontuação não me faço entender apenas sinto reticências ponto final

20 de setembro de 2006

LÍNGUA FALO

Qualquer devaneio é pertinente na concretude dessa terra inóspita. A natureza morta dessas esquinas tem cores frias cinzas na escala mais neutra. Por que tu? Responda-me, por que tu e não vós? Confunde-me essa conjugação com verbos no pretérito imperfeito futuro do presente. Que eu faça, que eu ame, se tu me fosses, se eles me abandonassem. Eu não respondo por que não quero, por que não convêm, por que não sei. Não me ofenda, nem me acosse. Quando eu te toco, faço carinho em mim mesmo. Adoro sentir seus pelos finos e descoloridos do teu dorso branco se arrepiarem quando pressentem o calor dos meus calos. Divirjo desse seu tesão. Para mim é tudo automático piloto que segue pelas vielas escondidas, pelas esquinas da tua anatomia curva. Meu prazer é ver teus olhos lacrimejarem dolorosos ao me sentir no abandono. Sou mastro ensejo e fim. Aquele escuro som de águas jorrando de sua flor em pêlos é meu antídoto para as agruras desses maus dias. Mal ou mau. É só calcular bem ou bom. Maldita língua que me confunde. Prefiro usa-la para enxerir no seu âmago, explorar cada obturação, submergi-la em mares tépidos e sagrados. Apraz-me o cheiro prendo a respiração. Abro os olhos e vejo a mata silva. Falo a tua língua. Faço falo minha língua. Sei o que te entendo, devoro tua seiva, morro minha cabeça tosando o manso regaço. Salvo-me, amarro-te, ignoro-me a mim mesmo. Sou eu agora em ti, dois que se confundem num, regados pela prata luz da lua. Cada palavra que profiro a ti vem da língua que te açoita e te faz gozar como fêmea simples e absoluta. Ditadura desses falsos moralistas. Essas letras que se reunem, lembram nossa alcova. Uma palavra é um sexo grupal e seu sentido é um orgasmo de profundos léxicos e semânticos.

Cuspo no teu rosto. É a palavra que mal conjugo. Maldita língua que te açoita.

14 de setembro de 2006

SAUDADES DO QUE DESCONHEÇO

E depois de amar
Eu me viro para o lado
Todo teu céu ainda me reina
E o sonho está fragmentado

Platão o que diria
Dessa metafísica imaginária
A distância que faz penetrar
Nosso sexo binário.

E depois de amar
Vem a solidão da alcova
O silêncio que eu mereço
É o indicio da tua ausência

Saudades do que não conheço
Não diga o que eu não minto
Quero fazer da tua mão a minha
Percorrer cada rua e avenida
E prometer te amar sozinha

E depois de amar
Virá o beijo, afago de amor.
Nossos olhos virão se mirar
E eu descobrirei a tua cor

A solidão será a dois
O sonho é para agora
Mesmo que ele venha depois.

11 de setembro de 2006

Dessonho

Vivo um dessonho
A anti realidade
Não suporto a concretude
Descarno daquilo que não senti

Passa cartão
Hora de morrer
Para comer e de vomitar
Cruel dessonho.

Meus dias eu conto
Cada fim de uma semana
Na segunda me morro
Na sexta me ressurjo sujo

Ter tempo é ter sorte
Azar é ter sonho
É não haver possibilidade
Escapar desse dessonho

Se dormir é solução
Acordo zumbi
Olho vidro estático
Plano real infinito

Cadê aquilo que amo
Amor cadavérico
A realidade não é pra mim
Prefiro manter-me acético

Ambiciono tal dia
Despertar
Desse
Dessonho
E cair definitivo
No universo
Utópico ululante
Dessonho pesadelo.

Escapo poeta.

MOMENTO GLORIOSO

Depois da morte não se é mais nada. Retornamos ao pó que nos foi gênese. Viramos um deposito de larvas e bichos no fundo de sete palmos de terra.
Mas é preciso reconhecer que morrer dignamente é o mesmo que viver com honras de um herói nacional.
Assim sendo, Severino morreu. Sua vida era totalmente desengraçada. Nunca foi referência para ninguém, amor para ninguém, importante para ninguém. Uma pessoa que foi apenas coadjuvante de sua própria história. Passivo de sua vida.
Severino não conhecia sua própria mãe. Tinha como figura materna uma freira que o criara no orfanato. Saiu de lá para tentar trabalhar, mas não tinha a mínima vontade de possuir um ofício, por mais que lhe fosse vital. Trabalhou, forçosamente, de servente de pedreiro durante muito tempo. Profissão digníssima, diga-se de passagem, mas ele a praticava com tamanha incredulidade que mal conseguia se manter em um emprego.
O amor também não existia para ele. Conheceu o pecado num prostíbulo, donde foi expulso pois não pagava suas súcias. Vivia a deus-dará.
Até que um dia viajou, por conta de um amigo, para tratar de uma úlcera perfurada. E nesse tratamento morreu. No necrotério, o corpo de Severino foi confundido com o de um figurão, um grande homem, rico e influente. E o corpo do verdadeiro “grande homem” foi embarcado para a cidade de Severino. O enterro de Severino sucedeu com todas as pompas e circunstâncias. Houve parada militar, desfiles com a cavalaria, a presença do Presidente da República e muitas, várias, inúmeras viúvas para lhe chorar.
Um enterro luxuoso, como nunca sonhara o pobre Severino, que teve uma vida desengraçada, mas pelo menos no momento de seu enterro se tornou importante. Ao menos uma vez na vida.

9 de setembro de 2006

LÚCIA

Luz não só conduz
como elucida o luzir do anoitecer
de pele veludo
mãos adormecidas sob minha cabeça

Véu de doce azul no manto
tens a aura de um santo
sopro anil dos novos dias
nessa vida que se fez amar

És mãe, és mão,
sublime doce e tenra
desde priscos alicerces
envolocro de placenta

Quero ver-te para sempre
no teu sorriso gengivico
largo e belo
Como o doce e sincero
amor de mãe.

5 de setembro de 2006

Abscissas

A solidão é uma amiga inseparável
Companhia das frias noites
Presença nos domingos de sol

Sei que já fui amado e amei
Sinto que eu joguei tudo fora
E nada mais parece fazer sentido

Já fui o namorado perfeito
E o canalha amoral
Fui inocente e flor de obsessão.

Qual a fórmula matemática do amor
A equação de segundo grau
Dos corações X e Y
Abscissas e Paralelas relativas e congruentes.

O espelho é mentiroso
Quem está lá não sou eu
Com esse olhar jocoso
Funesto e decaído.

A solidão é tangível
Branca com estrelas das noites
Molhada como o mar de areia.

A solidão é só minha
Tenho ciúmes. Sou possessivo
A solidão é nossa.
Juntos e tão sós.

Lóbulos das Orelhas

Os cinzas das manhãs são irreais
Não tenho mais o penar de sair da alcova
Nesses frios trópicos.

Com a incerteza de te ver
Fico olho alerta
Nas cadeiras tenho a ti
ou em pé a balançar
Trajando seu singelo All Star

Cada sol de cada dia é menos intenso
Sem a alvura dessa pele, tudo fica sépia.
Não preciso mais morrer de dormir
Os olhos se abrem viçosos.

Que esse tépido banho de ilógico
Me avise a todo momento sobre
a sua liberdade, para que então,
com efeito, possa envolver-te com meus braços
e jazer meus olhos sobre os teus.

Espero também, mais e mais palavras
Que o vento venha beijar na minha orelha
Sublime e me suba o calafrio.

2 de setembro de 2006

MEDO DO AMANHÃ

É irônico pensar em músicas. Sobretudo fazer um histórico das musicas populares brasileiras. O gênero MPB há tempos não é mais popular. Nos dias de hoje quem admira esse gênero é considerado cult. A grande massa rechaça essas canções. As letras de Chico e Caetano tornaram-se ininteligíveis, de difícil acesso para as classes médias e baixas. Aliás, não há definição mais genérica e transgredida do que “classe média” no Brasil. Hoje qualquer vivente com TV e geladeira em casa já é “classe média”. Há dois tipos de classificação para essa divisão social. Existem as classes econômicas e intelectuais, as quais nem sempre são as mesmas para uma mesma pessoa. Há pessoas que estão no poder, mas são analfabetas funcionais e também há suburbanos leitores de Nietche e Marx. Isso é o efeito da tal globalização.


O assunto teima em me fugir e, às vezes, surgem as digressões. Perdoem-me, leitores. Mas voltando à vaca fria, não há nada mais anti-popular que a Música Popular Brasileira. Essa denominação surgiu na década de 60, durante os movimentos estudantis e os festivais de música. Perco-me na imaginação ao tentar prever como seriam hoje os Festivais. E, sinceramente, prefiro nem imaginar. Decerto, um Festival de música popular, na cepção da palavra, seria um baile funk com algumas pitadas de POP Rock. Uma lástima. Um dos candidatos fortíssimos seria a Tati Quebra Barraco, concorrendo contra algum grupo POP e suas canções insossas. O público vibraria quando tocassem “To ficando atoladinha”.


O fato que mais me deixa aturdido é o de pensar na história com ela sendo cíclica, e os fatos e situações se repetem de tempos em tempos. Isso leva ao raciocínio lógico que todos esses “sucessos” da atualidade, daqui a 30 anos, serão tidos como cult, assim como são hoje as músicas do Chico. Vejam bem, não faço aqui qualquer comparação com a qualidade da obra de ambos os artistas. Até gostaria de fazê-lo, pois me confortaria profundamente. No entanto, me assusta a idéia da elite intelectual do futuro se refestelar com a “obra” do DJ Serginho. Imaginem um café filosófico discutindo a poética dessas musicas, a melodia, a representatividade do funk da nossa geração. Me vem a cabeça um homem de cavanhaque, fumando um cubano e discutindo o sentido metafórico da “Lacraia” e sua dança afro descendente. Isso se esse intelectual existir, pois o intelectual no Brasil tem sido caçado como um bandido sujo, ele é o maior contraventor da nossa sociedade nesses tempos esdrúxulos.


O mais aterrador é conjeturar qual seria a Musica Popular desse futuro próximo. O que os jovens descerebrados estarão dançando baladas afora? Prefiro nem imaginar. Está claro que a nossa sociedade vem se degradando a cada ano. A cultura de massa vem se tornando um lixo lamentável. Somos reféns dessas corporações das comunicações que nos impõem modas e modismos. É melhor nem pensar nesse amanhã. O que podemos fazer é nos defender dessa armadilha que estão tramando para destruir a cultura da nossa sociedade através da aniquilação dos nossos cérebros.


Viva o MP3, os fones de ouvidos, a seletividade. Sem eles seria o fim de todo e qualquer tipo de bom gosto.


Ave Chico.

13 de agosto de 2006

A mim só resta ser esse absurdo.
os normais são um erro.
Quem discerne é a regra
Excessão são os amados, respeitados, considerados.
Notória preferência para aqueles
que são diferentes.

2 de julho de 2006

ALVA PELE

Pele de anjo

Esconde um fogo insano

Queima a quem olha

Engole a quem toca



Louros agudos

Amargos soturnos

Inversos encarnados

Revelam o escárnio da tua



Alva pele,

Pela fria

Sutil morte da pele viva

De súbito arrebata



O sonho mórbido

É tão só um álibi

Cravado em madeira

Numa nua verdade derradeira



Alva pele,

Maculada pelo sangue

Lacerada pela dor

Mil navalhas de aço cintilam



O láscio é a dádiva

Apenas um privilégio

Provisório e eterno.

Ultimo e primário.



Em seus braços nus

As marcas do meu ódio

E seus seios bonitos balançam sem vida.

Os olhos baços e cinzentos

Fitam-me acusadores:

- O que você fez de mim, meu amor?

Arranco-os.



O colo em calor

O solo em louvor

Úmido e quente

Pesado e denso.

Entro e saio, sem de lá me retirar.



A minha parte que coloco em ti

Já não é só sua.

E para sempre será.



Alva pele,

Pele fria.

Era tua.

Agora é minha.

27 de junho de 2006

LONELY

O colo em chamas que me chama.
a bruta pele é o apelo.
o silvo agridoce que apetece.
Encarnado na alma doce insana.
uma brasa no peito
e um coração desconexo

22 de janeiro de 2006

Para não dizer nada.

Tenho o desejo de escrever, mas não sei bem o que. As vezes tenho essas impulsões absurdas, sem qualquer nexo ou razão de ser. O fato é que as letras me chamam.
A Carolina, minha grande amiga, fez para mim uma comunidade no Orkut. Vejam só o quão me sinto feliz por saber que alguém gosta dessas palavras ajuntadas que eu desenho. Sim, por que escrever não passa disso. Um algo que se faz, que começa com uma letra maiúscula e termina no ponto final, no meio a gente joga idéias codificadas por palavras, as quais formam orações, e que culminam num texto.
A grande verdade sobre mim, teimo em revelar, mas falarei: a rigor não sou um escritor. Sou um criador de estórias, um contador de causos. Apenas utilizo o recurso das palavras como forma de externar aquilo que a minha cabeça insana cria. Sou um poeta medíocre. Até tento me enveredar pelos versos, mas eles os melhores surgem na hora errada: quando estou no metrô, assistindo futebol, escovando os dentes. E os versos são como balões de hidrogênio, se você não os amarra com palavras eles sobem para o infinito e nunca mais retornam. Por isso sou mais fiel e dedicado as minhas historias. Elas ficam no meu banco de dados memorial por anos e anos, podendo ser aproveitadas em várias situações.
Versos são como gatos, bonitos e atraentes, porém traiçoeiros. Historias são os cães fiéis que fazem o que eu mando e nunca se vão para longe. Para quem não tinha nada o que dizer, até que fiz algumas linhas e até desenvolvi algum raciocínio.

4 de setembro de 2005

COMO VENDER UMA CUECA AMARELA PARA UM HOMEM CASADO QUE MORA NO CENTRO DA CIDADE, DONO DE UM TELEFONE BEGE.

Homem é homem e fim de papo. Mas aquele era alguém. Seu casamento era como todos os demais: chato por natureza, rotineiro por excelência. Não havia o que lhe proporcionava maior felicidade, a não ser seu amigo intimo fiel, que não era seu cachorro nem algo parecido. Para os olhos externos, aquele homem tinha uma vida perfeita, a mulher perfeita, os filhos perfeitos, um emprego perfeito, morava numa casa e num lugar perfeito, ele próprio era o Senhor Perfeição e ainda possuía um telefone bege. Existiria alguém mais feliz?Até que um dia seu irmão lhe questionou: “Você conhece a cueca amarela?” O Senhor Perfeição não deu muita pelota para o que seu irmão caçula lhe indagava. Mas a pergunta se fez voz novamente, pelo mesmo irmão, e numa desafiadora afirmação: “Você não é feliz sem conhecer a cueca amarela.” Uma ponta de dúvida surgiu na cabeça daquele homem. Seria ele realmente feliz? Não era possível que um produto tão ínfimo e dispensável fosse tão cheio de possibilidades e de felicidades. O que era uma ponta de duvida se transformou em tormento e, num belo dia, ele argüiu ao seu irmão: “Mas o que faz essa cueca amarela?”. Cheio de malícia, o rapaz explicara que a cueca amarela energizaria os chacras e lhe daria mais potência para dar conta da noite-a-noite da sua alcova. Impressionado com o discurso pseudocientifico de seu irmão, aquele homem perfeito declarou: “Eu quero uma cueca amarela”. Sem pestanejar, seu irmão foi-lhe buscar o sonhado produto. Chegou ela, surrada, suja, com alguns furos, mas amarela como uma manga. O preço do produto foi sugerido pelo irmão e não questionado pelo homem perfeito. Adquiriu com a felicidade daqueles que compram uma cueca amarela.Hoje o Senhor Perfeição é um Senhor Perfeição dotado de uma cueca amarela. Sua vida permanece a mesma, exceto para ele próprio, pois a compra da cueca amarela lhe proporcionou um sentimento de renovação espiritual. Até seu amigo intimo fiel se tornou mais atuante e confiante. Enquanto o irmão conseguiu levantar a grana que precisava para comprar sua moto, uma moto amarela que o fez mais evidente aos olhos femininos. Homem é sempre homem.

15 de junho de 2005

FRAGMENTOS "Padre Doutor fala à comunidade"

_Irmãos e irmãs, hoje estamos reunidos nessa celebração em nome de Nossa Senhora da Glória, para demonstrarmos todo o nosso amor e devoção não apenas à nossa padroeira, mas também para com toda nossa cidade, nossa cultura, nossa terra. Essa festa possui uma significância retumbante em nossa comunidade. É aqui, nesse momento, que nós demonstramos todo o nosso apego, nossas carícias para com as raízes que nos deram a gênese. É exatamente sobre isto que pretendo falar nessa minha retórica. Quero falar sobre o amor. O amor incondicional, o amor que pode vir disfarçado em várias formas, que não tem regras e nem exceções. O amor aos vivos, aos que já nos deixaram e aos que nem sequer possuem vida. Somos todos vítimas e privilegiados pelo amor. Jesus Cristo nos ensinou o que era o amor. Ele sim nos amou com toda a sua vida e todo o seu flagelado coração. Pois, baseado nos ensinamentos de Cristo, quero vos dizer que toda espécie de amor é nobre, seja qual for, seja como for. Nossas vidas são entremeadas e calcadas em atitudes passionais. Não há nada mais forte e que consiga mover o ser humano do que o amor. O amor ao trabalho que nos faz sair de casa muito cedo para a labuta, o amor aos nossos filhos que nos faz enfrentar os ossos que o ofício nos trás, o amor ao dinheiro que, infelizmente, pode nos corromper e nos prostituir. Por fim, o amor ao próximo, carnal e apaixonado que nos leva a atitudes insensatas e cegas. Cristo nos ensinou o amor dadivoso e incondicional. Pois saibam que o ser humano comum não suporta uma situação assim. Somos egoístas, egocêntricos. Precisamos amar, mas, sobretudo, ser amados e, de preferência, com a mesma intensidade. Somos fracos, indefesos e, infelizmente, gananciosos. Não permitimos que nada, em absoluto, atravesse o caminho dos nossos desejos, nossos sonhos. Por isso, nesse momento, gostaria que todos abaixassem suas cabeças e, silenciosamente, suplicassem a Deus, aos anjos-da-guarda, a Nossa Senhora que nos dêem força, muita força para superarmos todas as tentações pelas quais o amor nos subjuga. E peçamos perdão, não a Deus – pois Ele é misericordioso – mas sim aos nossos irmãos e a toda humanidade pelos pecados que, por ventura, viemos a cometer em nome do amor. Por mais que o motivo seja nobre, seja justificável, mas se nós já machucamos alguém, se já fizemos alguém sofrer por amor, peçamos perdão do fundo da alma.


Momento de silêncio profundo. Todos os presentes se mantiveram com a cabeça dobrada e os olhos fechados num momento de introspecção. O bispo Dom Belchior aparentemente cochilava. O Padre Doutor retoma a palavra.




_ Minha mensagem final é uma única: Amem, amem com todas as forças de seu coração, pois estamos nesse mundo com uma missão específica, a de amar e ser amado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.




_ Para sempre seja louvado. – responderam todos em coro.

Almeida,Paulo César. A Sete Palmos. 2005.

3 de junho de 2005

A SETE PALMOS - fragmento do Capitulo I

(...) Quando os olhos se fecharam, a garganta secou rapidamente. Um rombo ardia em sangue latejante. O chão se tornou um aparato para o corpo dolorido. Apenas um estrondo foi capaz de provocar tudo isso. Aliás, dois estampidos, pois Juvêncio fora homem o suficiente para conseguir disparar também sua arma. Mas não manteve os olhos abertos para ver a conseqüência do seu ato heróico. Bravo trabalhador braçal que agora se via nos laços do anjo implacável, esse anjo que quando passa leva quem o destino determina, sem qualquer discrepância, seja o escolhido abastado ou miserável. Tamanha é a intolerância do anjo implacável que naquele minuto estava levando consigo o Senhor Olivério, um homem rico por herança e ganancioso. Desses homens soberbos que comungam da religião do dinheiro, porém sua esperança de vida se agarrava a um Deus que nunca foi digno de sua devoção enquanto lívido. Aquele homem das finanças só não conseguira comprar sua própria vida. Agora quedado sobre seu jipe, babujava o sangue que lhe saia das entranhas e esperava, com medo, a morte se abancar sobre si.
O Homem do Capuz Sombrio jorrou seu gélido caldo mortal sobre a cabeça de Juvêncio que o esperava serenamente. Os pobres não temem a morte, já que vivem à margem dela, e também por que crêem em uma vida mais justa no Reino dos Céus, em compensação pela vida desengraçada que levara na terra. A única lembrança que atormentava aquela mente cansada da vida era a de Violante, sua filha única que agora ficaria sozinha nesse mundo tão tirano. No mais, se comprazia com a “doce” sensação do endurecimento de suas vértebras, o sentimento de um sono profundo que seria eterno e inviolável. Finda-se a fome, a garganta suplicante por água, as dores do mundo, tudo isso agora era para os humanos vivos. Ele não mais precisaria sentir o amargo gosto da cachaça para sobrepujar suas magoas. Sentimento egoísta, mas que ele se via em pleno direito dele, uma vez que passara pela terra a franzir a testa por causa de problemas de seus amigos e filha. Ao pobre resta a resignação, não mais a luta.
Já Olivério tinha medo, quando começou a sentir suas pernas dormentes, suas pálpebras insuportavelmente pesadas, o coração em disparate, quis gritar por socorro, mas sua voz já não transcendia à própria garganta. Nunca mais escutariam seus gritos, fossem eles de gozo ou de desespero. O pavor de sentir aquele que é o destino certo do ser humano se cumprir fazia desse momento uma terrível tortura, comparada àquelas que seu grande herói nazista promovia em seu domínio na Europa. A dor de dentro de seu peito, irrompido pelo projétil, reverberava para todo seu corpo, para toda sua alma. Mas tinha realmente alma esse homem? Deus lhe dera sim uma alma, mas de tanto massacrada que fora, resolveu tomá-la de volta. Uma conclusão simplista e errônea. A morte leva a todos, mas tem o capricho de dar aos pobres de espírito alguns segundos de moribundez. Talvez para expurgar seus pecados.
A morte vence. Dolorida ou serena, sempre vence.

31 de maio de 2005

FRAGMENTOS - A Sete Palmos

(...)No cemitério, Tânia batia na porta da casinhola caiada do coveiro. De dentro, Meneandro terminava de esculpir uma imagem em gesso que enfeitaria a esquife de Dona Amandinha que morrera fazia alguns dias, enquanto isso ele escutava música clássica em uma radiola. A porta era esmurrada com veemência, mas Meneandro não escutava já que suas atenções se voltavam para a imagem e seus ouvidos para a música que ressoava uma sinfonia de Bach. A menina Tânia não mais se continha diante da ausência de respostas. Uma chama ardia dentro de seu peito, a obsessão calava qualquer voz da razão, então ela esmurrava e gritava como uma selvagem. Seus berros ecoavam por entre os túmulos e sarcófagos do cemitério. O silêncio sepulcral era violado pelo grito da paixão. Até que o urubu Casemiro surge ao lado de Tânia, que numa insensatez, começa a clamar ajuda para o abutre. A ave assistia os apelos com uma passividade irônica, uma indiferença medonha. Por mais que gritasse, parecia que Tânia não era ouvida em lugar nenhum. Seus apelos eram inócuos. Na sua obtusidade, a menina saiu correndo por entre os túmulos, foi driblando um a um até que caiu de frente sobre o sarcófago de Dona Amandinha, ainda recoberto por flores vermelhas, uma vez que o enterro era recente. O som da queda de Tânia pareceu retumbar nos ouvidos de Meneandro, que imediato estacou sua atividade. Ele se levantou, desligou a radiola e foi ver o que estava acontecendo do lado de fora. Ao sair viu o urubu Casemiro mancando em direção à casinhola do coveiro, tudo parecia normal. O som dos grilos ditava a trilha sonora de uma noite que tinha um aspecto corriqueiro. A exceção da lua que possuía uma luz diferente, quase irisada. No entanto, Meneandro sentia que algo fugia da rotina. Havia alguém que necessitava dele. Resolveu, então, caminhar por entre os túmulos para averiguar a tranqüilidade que se apresentava.
Com a lanterna no bolso, pois a luz da lua dispensava o uso do aparato luminoso, Meneandro trançava por entre os jazigos e covas com um olhar atento a tudo. Vislumbrava cada escultura, cada epitáfio gravado nas lapides, e via aquilo com orgulho, pois seu trabalho, razão de sua vida, estava ali fixada no chão do campo santo de Nova Glória. Nesse momento possuía a certeza que seus mortos estavam satisfeitos com o seu trabalho e que eles regozijariam do conforto de seus túmulos para o resto da eternidade. Meneandro nutria o doce sentimento que estava cumprindo sua missão na Terra, missão essa que lhe fora concebida pelo destino no momento de sua chegada nesse plano de vida.
O coveiro, então, divisa algo muito estranho que estava tumultuando a paz de Dona Amandinha, a nova residente do cemitério de Nova Glória. Meneandro se adiantou na direção do tumulo recém inaugurado e quando lá chegou percebeu que havia alguém ali caído de bruços. Buscou com as mãos saber quem era e quando virou o corpo percebeu que se tratava de Tânia. O coveiro teve a nítida impressão que a menina estava morta e procurou chamá-la no intento de despertá-la, mas Tânia se mantinha imóvel. O desespero tomou conta do coveiro que buscou a pulsação e a respiração daquele corpo desfalecido. Porém, nenhum sinal vital podia ser sentido. Um último recurso que poderia ser usado: a tentativa de reavivar. Meneandro procurou fazer massagens no coração e respiração boca-a-boca. Tânia não reagia. Depois de várias tentativas, o coveiro desistiu e caiu em pranto ao ver aquela menina morta em seus braços.
Súbito, Tânia se move. Seus braços se erguem e abraçam a cabeça do coveiro que ainda chorava. Quando se dá conta, Meneandro soergue a cabeça e vê os olhos rutilos de Tânia sorrirem para ele. Num rompante, o coveiro beija a menina sofregamente. Não existia ali mais nada que pudesse ser mais importante. Nem mesmo o fato de estar sobre um túmulo lhe parecia empecilho. Então, Meneandro e Tânia se amaram ali mesmo. Um sexo cálido, mas carinhoso. Sob a luz da lua e cercado por coroas de flores e cravos defuntos, o casal se entregava à libido na dança frenética e lancinante da paixão. Seus corpos nus se enroscavam e se confundiam como se fosse apenas um entre flores e cheiros. As imagens, as lápides, os sarcófagos, até mesmo Casemiro assistiam a tudo como voyeurs sobrenaturais e silenciosos. Tânia flutuava lépida, enquanto Meneandro procurava álibis. Ambos gozaram ruidosamente.(...)

22 de maio de 2005

O Retrato...

Uma réstia de luz amarela solar invadia aquele ambiente mórbido por uma fresta da persiana e iluminava a poeira densa que pairava no ar. Apesar do sol estar soberano nos céus, a sala se mantinha inócua, envolvida por uma penumbra úmida. O cheiro que ali se olfatava era de umas vidas tépidas, sobrevivendo apenas de reminiscências de um passado muito recente. A cor que se desenhava era um encarnado sangue, jorrando infinitamente pelos tapetes felpudos e paredes ásperas. O amor naquele ambiente fora substituído pelo sentimento de posse e, como conseqüência, a morte se apresentara com todos os seus eflúvios.
Sentado de frete para a janela encerrada numa película, Jorge amava seu charuto de Havana com a língua esponjosa. Seu olhar perdido no tempo dava-lhe um ar de regozijo, o qual parecia ser externado pela fumaça mal cheirosa daquele tabaco. O que havia naquele momento, senão um doce sabor de alegria, mesmo sublimada pelo ódio que lhe acometera. As cinzas eram batidas com displicência num copo sujo improvisado de cinzeiro. A garrafa de Chivas Regal vazia compunha o retrato de uma leve lucidez embriagada. Mas não era a bebida que lhe entorpecia, mas sim o tenro sentimento da vingança.
Depois de um casamento considerado pelos pares como aberto e livre, Jorge finalmente botara fim àquela situação. Inicialmente aceitara aquela relação com ares tão modernos e cosmopolitas. Todavia, o sexo entre eles e seus respectivos parceiros estavam se tornando aos poucos uma lúbrica tortura. O marido se via numa situação privilegiada, pois poderia ter em seus braços a mulher que desejasse sem a intromissão de sua esposa. Karina, sua esposa, já parecia se esbaldar com aquele ambiente libertino.
Tudo ocorrera com a normalidade das novas relações humanas. Mas o homem guarda em si resquícios de sua pré-história. Hoje vemos Neandertais a fins de parecerem homo-digitalis. No entanto, o destino traçado pela sociedade machista se cumpriu. Jorge se regozijava com o cubano e a embriaguez do whisky e também ao ver Karina nua, esvaindo sangue pelos furos de bala. Ao lado dela, o filho, também nu, não menos morto. Morreram no pecado. Pecado permitido pelas novas relações humanas. Um retrato bem enquadrado daquele amor em seu formato mínimo.

8 de maio de 2005

O Primo Basilio - Eça de Queiroz

Tinha suspirado. Tinha beijado o papel devotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatado em seu calor amoroso que saía delas
Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo do estímulo por si mesma
E parecia-lhe que entrava enfim uma existência superiormente interessante
Onde cada hora tinha o seu intuito diferente
Cada passo conduzia um êxtase
E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações

21 de abril de 2005

Alcova dos Poemas

Após caminhar trôpego, sem olhos para o horizonte, ele amargava o ácido de um dilúvio de amores obsoletos. O sol lhe parecia um adversário ferrenho para quem já caminhava fazia anos. Seus pés em brasa, queimavam o chão árido, suas lembranças desenhavam as sombras que perseguiam mordazes os sonhos daquele lisboeta. Neste ínterim, o maltrapilho desenhava com seus passos uma trilha infeliz, sem a surda e aguçada presença de um fio que fosse de esperança. Os cegos que surgiam pelo caminho indicavam para onde ele deveria seguir. E como um mudo galopante, ele foi, com sua sublime inocência, para um vale d’onde somente os amaldiçoados conseguem se ver livre. Diante os tropeços inadiáveis, ele rubricava com os pés cada passo que praticava e registrava com sua retina fadigada a obra de um ser mágico e sublimemente superior. Mas absolutamente nada lhe tirava o foco do seu desespero iminente. Seu mais profundo sentimento era o de condenação ao paraíso, onde o demônio é um rei libertino. Dentro de seus bolsos apenas um pedaço de filtro, queimado horas antes com o objetivo de florear a viagem, mas nem isso conseguia lhe retirar a torpe sensação de miséria e desacordo. Até que a luz se fez alumiar, no alto de um alicerce. Mas era sofrivelmente distante, a luz de cor clara e incandescente. Para conseguir seu acesso, somente se ele expurgasse de dentro de si a cólera de anos de aviltamento endinheirado. Sabia que aquele era um terreno de férteis indagações, d’onde nasceria o cálido sentimento de cumprimento de sua missão terrena. Mas o mudo, guiado por cegos, e com a esperança surda, atinou a escrever alguns versos que lhes eram decorados graças à professora. Debalde. Sua capacidade de desenhar os garranchos sucumbira ao seu extremo ódio. Agora teria a sólida certeza que ele nunca alcançaria a Alcova dos Poemas, onde de seu corpo ele faria um tapete macio, em que seus ossos estariam descansados. E as músicas que lá soavam eram lânguidas e executadas por ninfas nuas elevadas em seus ninhos. Restava-lhe reatar a caminhada lisérgica e lavar seu estômago com água boricada.Era o fim do suplício terreno. Era o início da maldição do paraíso.

27 de fevereiro de 2005


Um nada, um intervalo vazio, preenchido com cores e textos.
Vem aí:
O HIATO
Obra de Paulo César Almeida e Sabrina Moura

17 de fevereiro de 2005

A Maldição do Artista

1- Não há o que se dizer a respeito dos nosso estimados artistas, tanto em nossa cidade como em variados logradouros desse país. Eles são responsáveis por incomodar as beatas conservadoras que insistem em viver dentro daquilo que os parâmetros que a própria sociedade determinou e acredita ser o “correto”. Eu vos digo, não existe conceito mais relativo que o de certo e errado. Não existe uma unidade, uma unanimidade.

2- Agradeço ao sistema essa dádiva, pois vislumbrem, meus amigos leitores, se existisse uma só forma de se viver “o correto”. Certamente viveríamos sobre uma lei do absurdo, onde nossa família, namorados e patrões seriam ciborgs típicos das fitas de Spielberg.

3- No entanto, não era exatamente sobre isso que gostaria de falar. Certa vez, o Humberto Gontijo, um grande ator, um dos maiores talentos da nova geração confidenciou a mim um fato doloroso. Peço licença a ele para quebrar esse segredo de confessionário. Somos amigos e por isso tomei tal liberdade.

4- O nobre ator me disse: “Não existe para o artista uma felicidade amorosa”. Essa declaração me fez pensar em profundidade sobre o coração de um artista. Naquele momento pensei ser uma hipérbole a afirmação do meu nobre colega. Mas pude ver que a razão iluminava sua reflexão.

5- É realmente recompensador ser uma artista. Muito embora sejamos discriminados e incompreendidos, não há nada mais regozijante que ver seu filho, sua obra sendo disseminada, aclamada, aplaudida. No entanto, há que se ressaltar com ênfase que um deflúvio fica para se pagar.

6- O que pretendo dizer é que alguém que possivelmente queira se enveredar pelos caminhos da arte necessita, previamente, fazer uma escolha. O artista é um fadado a ser um desinfeliz no amor. Isto é fato, mas que cabem várias objeções.

7- Independentemente das vozes que hão de objetar esse fato, eu repito: O artista tem em sua essência a nostalgia do amor mal acabado, a amargura do desafeto. Isto ocorre com o artista de fato, não esses pseudo-famosos que se auto-proclamam “celebridades”. Quanto à nomenclatura eu vos digo: as celebridades de celebres não possuem nem um fio de nylon.

8- Dessa forma, o artista se torna artista verdadeiramente. Aquele que possui a mancha do rancor, a marca do desprezo em sua pele e sua mente. Não há nada mais enriquecedor para um artista que uma tragédia, sobretudo uma tragédia afetiva. A titulo de um exemplo rasteiro cito a bela Ana Paula Arósio que, no início era uma bárbie, mas que depois de seu noivo ter se suicidado bem sob seus olhos, se tornou uma grande atriz, com traços dramáticos e olheiras de uma Fernanda Montenegro.

9- Sim, a arte é uma dádiva. Mas existe também a maldição de ser um artista. A infelicidade do artista também pode ser considerada uma dádiva, pois ela lhe proporciona uma emoção profunda e humana, o que nos aproxima cada vez mais dos nossos interlocutores causando a imediata identificação.

10- Não pretendo aqui desanimar quem quer que seja a prosseguir acreditando em sua arte. Uma vez que, quem tem a arte pulsando nas veias jamais se desiludirá com esses aspectos. Ser artista não se escolhe, mas sim se é escolhido para fazer arte. E aquele que se sente feliz, mesmo com as mazelas sentimentais é por que finalmente se tornou um verdadeiro artista.

11- Repeti demasiadamente neste texto a palavra “artista”, o que, para os puristas gramaticais seria um pecado. Mas uso e sempre usarei essa palavra iluminada por ribaltas e olhares. Quem possui amor à arte não se reprime perante os “nãos” que recebe. O grande antídoto para a desilusão é criar, criar e amar profundamente aquilo que cria.

9 de fevereiro de 2005

COMO VENDER UMA CUECA AMARELA PARA UM HOMEM CASADO QUE MORA NO CENTRO DA CIDADE, DONO DE UM TELEFONE BEGE.

Homem é homem e fim de papo. Mas aquele era alguém. Seu casamento era como todos os demais: chato por natureza, rotineiro por excelência. Não havia o que lhe proporcionava maior felicidade, a não ser seu amigo intimo fiel, que não era seu cachorro nem algo parecido. Para os olhos externos, aquele homem tinha uma vida perfeita, a mulher perfeita, os filhos perfeitos, um emprego perfeito, morava numa casa e num lugar perfeito, ele próprio era o Senhor Perfeição e ainda possuía um telefone bege. Existiria alguém mais feliz?
Até que um dia seu irmão lhe questionou: “Você conhece a cueca amarela?” O Senhor Perfeição não deu muita pelota para o que seu irmão caçula lhe indagava. Mas a pergunta se fez voz novamente, pelo mesmo irmão, e numa desafiadora afirmação: “Você não é feliz sem conhecer a cueca amarela.” Uma ponta de dúvida surgiu na cabeça daquele homem. Seria ele realmente feliz? Não era possível que um produto tão ínfimo e dispensável fosse tão cheio de possibilidades e de felicidades. O que era uma ponta de duvida se transformou em tormento e, num belo dia, ele argüiu ao seu irmão: “Mas o que faz essa cueca amarela?”. Cheio de malícia, o rapaz explicara que a cueca amarela energizaria os chacras e lhe daria mais potência para dar conta da noite-a-noite da sua alcova. Impressionado com o discurso pseudocientifico de seu irmão, aquele homem perfeito declarou: “Eu quero uma cueca amarela”. Sem pestanejar, seu irmão foi-lhe buscar o sonhado produto. Chegou ela, surrada, suja, com alguns furos, mas amarela como uma manga. O preço do produto foi sugerido pelo irmão e não questionado pelo homem perfeito. Adquiriu com a felicidade daqueles que compram uma cueca amarela.
Hoje o Senhor Perfeição é um Senhor Perfeição dotado de uma cueca amarela. Sua vida permanece a mesma, exceto para ele próprio, pois a compra da cueca amarela lhe proporcionou um sentimento de renovação espiritual. Até seu amigo intimo fiel se tornou mais atuante e confiante. Enquanto o irmão conseguiu levantar a grana que precisava para comprar sua moto, uma moto amarela que o fez mais evidente aos olhos femininos. Homem é sempre homem.

4 de fevereiro de 2005

Viver a vida. Mas como?

O lugar-comum preferido das canções ideologicas reside num valoroso conselho armado e desfarçado em versos rimados que, logo, logo ficam martelando nossas cabeças. O tal conselho se refere diretamente ao ato de viver a vida intensamente, fazermos de cada ato "o único", aproveitar o hoje e viver, viver pra valer. (perdoe-me, leitor, não pude resistir à rima)
O que ocorre, na verdade, é que somos escravos do nosso próprio tempo. Temos compromissos demais, "depois" demais, "amanhãs" demais. O hoje se torna um momento de transição e não o nosso verdadeiro presente. Não imaginamos que o "amanhã" não existe. Ele é completamente subjetivo, abstrato. E o "ontem" é uma pagina empoeirada da história.
Me vem, então, a grande idéia, a descoberta da polvora cantada em verso e prosa pelas melodias. Vivamos a vida intensamente, cada momento. No entanto, este inquieto cronista vos argui: Como????. (com todas essas interrogações). Qual o grande segredo de viver a vida? Seria o Carpe Dien mais uma utopia da humanidade?
Chega. Não quero ficar enxovalhando o leitor com tantas perguntas. Mesmo porque você tem coisa melhor para fazer. Tal como: Viver a vida intensamente.
Amarro-me numa conclusão rasteira. Viver a vida é deixar o destino te levar e o amor acontecer. O que vem depois é "amanhã".

16 de outubro de 2004

MOMENTO GLORIOSO

Depois da morte não se é mais nada. Retornamos ao pó que nos foi a gênese. Viramos um deposito de larvas e bichos no fundo de sete palmos de terra. Mas os homens precisam reconhecer que morrer dignamente é o mesmo que viver com honras de um herói nacional.Assim sendo, Severino morreu. Sua vida era totalmente desengraçada. Nunca foi referencia para ninguém, amor para ninguém, importante para ninguém. Uma pessoa que foi apenas coadjuvante de sua própria vida. Passivo de sua história de vida. Severino não conhecia sua própria mãe. Tinha como figura materna uma freira que o criara no orfanato. Saiu de lá para tentar trabalhar, mas não tinha a mínima vontade de possuir um ofício, por mais que lhe fosse vital. Trabalhou, forçosamente de servente de pedreiro durante muito tempo. Profissão digníssima, diga-se de passagem, mas ele a praticava com tanta incredulidade que mal conseguia se manter em um emprego.O amor também não existia para ele. Conheceu o pecado num prostíbulo, donde foi expulso pois não pagava suas súcias. Vivia a deus-dará.Até que um dia viajou, por conta de um amigo, para tratar de uma úlcera perfurada. E nesse tratamento morreu. No necrotério, o corpo de Severino foi confundido com um figurão, um grande homem muito rico e influente. E o corpo do verdadeiro “grande homem” foi embarcado para a cidade de Severino. O enterro sucedeu com todas as pompas e circunstâncias. Houve parada militar, desfiles com a cavalaria, a presença do Presidente da República e muitas, várias, inúmeras viúvas para lhe chorar. Um enterro luxuoso, como nunca sonhara o pobre Severino, que teve uma vida desengraçada, mas pelo menos no momento de seu enterro se tornou importante. Ao menos uma vez na vida.
PAULO CÉSAR ALMEIDA

16 de setembro de 2004

A ESTRANHA RACIONALIDADE

Se há algo podre no mundo e que contamina tudo que há a sua volta, a isso podemos denominar dinheiro.
O dinheiro é capaz de aviltar até mesmo um santo encerrado em seu caritó. As relações humanas calcadas pelos sifrões são diafanas e levianas. Isto por que podemos perceber que onde há a questão financeira em jogo, há tambèm a ausência de amor. Eis dois inimigos íntimos: o dinheiro e o amor. Ambos não vivem sem o outro, mas ao mesmo tempo se repulsam mutuamente.
E quando há a falta de amor, chegamos ao ponto do mercenarismo, onde a mesquinhez predomina com todas as suas garras mais profanas. Nesse momento, o ser humano demonstra uma estranha racionalidade, onde os multiplos e didendos se somam a um ifinito temível chamado caixa. Eis a fonte do poder e do egoísmo humano, o caixa guarda consigo todo o desejo de fortuna e soberba.
Enquanto a racionalidade financeira funciona com sua mecânica devoradora, a maior riqueza humana: o amor, vai sendo esmagado, solapado pela lógica consumista e mercenária. Lembrem-se do lindo evangelho, "Ainda que tivesse todos os reinos sob meu comando, sem amor eu nada seria".

25 de agosto de 2004

PREGUIÇA MALDITA

Nossos olhos são tão acostumados com leituras imediatas de icones e simbolos, que a nosso campo de visão sobre o mundo se torna viciada. O desejo extremo pela praticidade, a nossa latente falta de tempo, nos torna relapsos quando a questão é a leitura de minucias e reflexiva.
O ato de ler tem o efeito maravilhoso de provocar nossos sentidos e nos fazer imaginar o que cada palavra, ou jogo de palavra pode representar. Isso aguça a nossa sensibilidade e desembaça a visão de mundo.
Esse blog não tem imagens engraçadas, montagens maravilhosas, efeitos em flash, nada disso. É um espaço para as palavras, que esse humilde literato teima em escrever. Sei que não é um blog premiado com inumeras visitas, nem faço tanta publicidade dele e suas atualizações são demoradas. Isso por que gosto das palavras e elas exigem que eu as trate bem, e isso demanda tempo.
Portanto, pra você meu amigo que gosta de ler, e gosta do meu blog lhe digo que seja cada vez mais leitor do mundo. Não deixe que o cantoa da sereia das imagens vicie sua mente. Procure a leitura reflexiva a aquela que lhe reflete algo.
Não deixe que a preguiça maldita das imagens feitas encabrestem sua visão.

5 de agosto de 2004

FRASES

Somos todos filhos de uma obsequiosa trangressão, portanto pratiquemo-la com prazer.

Nosso conceito de beleza perpassa obrigatóriamente pela Gisele Buenchen, mas, na prática amemos mesmo as feias comuns, essas são mulheres de carne, osso e um enorme coração.

Não importa que seja um bicho, uma pessoa do mesmo sexo, um parente. O que realmente importa é amar.

O homem pratica o sexo com a mulher pela própria mulher, enquanto que a mulher faz sexo com o status, o carro, a segurança que aquele homem pode lhe dar, ou por outra, a mulher transa por pura piedade. "Tadinho, vou dar pra ele".

A fidelidade é um exemplo da arraigada hipocrisia na qual se baseia a nossa civilização. Ninguém é fiel a vida toda, o tempo todo. É natural que se traia.

A grande luta do ser humano é a de tentar domar o seu lado animal. Somos ridiculamente racionais.

O amor perfeito é uma mera ilusão criada por Hollywood. Eu creio nos amores imperfeitos, esses sim são reais e eternos.

O casamento é um teatro com todos os seus elementos: atores,uma farsa, luzes e platéia. Seu único ponto de divergencia é que é uma peça em que os protagonistas pagam (caro) para a platéia assistir.

4 de agosto de 2004

O Duplo Amor

Não há novela que se preze que não tenha um. Estão presentes também em romances, dos sofríveis às obras primas. Falo exatamente dos TRIÂNGULOSAMOROSOS. Uma situação dilêmática capaz de perturbar o sossego de um monge tibetano. Absolutamente ninguém está livre de ser, um dia, uma vértice dessa geometria de amor e pesadelo.
Tamanha angústia, causada pelos triângulos, é culpa da nossa propria civilização ocidental cristã, que preza a monogamia como base para as relações amorosas e também para a constituição da família.
Mas o que ocorre é que o coração humano é um latifúndio de grande escala, onde pode-se plantar e colher vários sentimentos diferentes. E o amor possui uma versatilidade tremenda, capaz de ter várias caras e formatos. Dessa forma, é perfeitamente aceitável que caiba dentro de apenas um ser vários tipos de amor dedicados á pessoas diferentes.
Nossos sentimentos são puramente humanos e fazem parte da nossa natureza. Assim sendo, as normas da nossa civilização são de certa forma assimilados por nós, mas nunca suplantam o nosso lado selvagem e irracional.
É exatamente nessa vértice da personalidade humana que age o amor. Daí vem os amores multiplos e confusos. Não há, portanto, pecado em se amar mais de uma pessoa. Afinal, somos essencialmente animais e o amor é um sentimento fora de qualquer razão. Amar duas pessoas ao mesmo tempo não deveria ser encarado com tamanho preconceito.
Eis o que eu queria dizer: Ame, ame incondicionalmente. Estamos no mundo para amar e nada mais. Não existe pecado no amor, seja ele dedicado a quem for ou a quantos forem. Pecado é matar o amor dentro de si.